Os jardins luxuriantes e o vinho da Madeira
Viagens

Os jardins luxuriantes e o vinho da Madeira



O Jardim Botânico em primeiro plano, com a cidade do Funchal ao fundo
       O Funchal, ao qual dedicamos o post anterior , possui uma quantidade invejável de áreas verdes espalhadas pela cidade e  arredores. Algumas são conhecidas mundo afora, como o Jardim Botânico e a Quinta do Palheiro Ferreiro. O centro da cidade propriamente dito possui duas destas áreas: o pequeno mas muito agradável Jardim de São Francisco na avenida principal, construído sobre o terreno do antigo mosteiro franciscano, e o Parque Santa Catarina, na encosta junto à marina. Não perca a bela vista para a cidade e o porto obtida dos seus terraços. Após a visita ao parque, pode-se aproveitar e subir a rua que o ladeia até alcançar o Cassino da cidade, projetado por Oscar Niemeyer na década de 60, assim como o hotel adjunto. O prédio do cassino tem a marca inconfundível do gênio brasileiro da arquitetura.

O Parque Santa Catarina

        O mais exuberante e bonito dos jardins da região do Funchal, a Quinta do Palheiro Ferreiro fica situada a oito quilômetros da capital, sendo acessível pelos ônibus 36, 36A ou 37, com entrada a €10,50. Trata-se de um esplêndido parque cultivado em estilo inglês ao redor de uma mansão. Alguns dos seus destaques são as camélias e as plantas esculpidas no trecho florido do jardim. Construída em 1820, a quinta pertence há 125 anos à família Blandy, antiga proprietária do hotel mais luxuoso da ilha e de companhias de exportação do vinho lá produzido.
    
Os elaborados jardins da Quinta do Palheiro Ferreiro

         Com relação ao famoso vinho, as primeiras vinícolas foram criadas pelo próprio descobridor da Madeira, João Zarco, no século XV. O vinho acabou se tornando o seu principal produto de exportação, graças à posição estratégica da ilha nas rotas de então e à presença de ingleses que o comercializaram, sem contar a conhecida qualidade do produto. Algumas novas variedades de vinho foram introduzidas pelos jesuítas no século XVII. O vinho então se tornou conhecido mundialmente, sendo inclusive o favorito de George Washington, que o usou para brindar à independência americana com Benjamin Franklin, entre outros notáveis.

          Uma característica marcante do vinho Madeira é a sua longevidade, graças ao processo peculiar de oxidação controlada durante o esquentamento até 60 ºC, sendo também muito resistente após a abertura da garrafa. Há vinhos produzidos no século XIX ainda perfeitamente consumíveis e à venda por algumas centenas de euros. Dentre os tipos de vinho mais famosos e refinados, se destacam o Malvasia (mundialmente difundido, mais doce), o Boal, o Verdelho e o Sercial, o mais seco de todos.

Mosaicos bicolores no Jardim Botânico

       Outro parque famoso é o singular Jardim Botânico, situado numa colina debruçada sobre a cidade. Há duas maneiras de se chegar ao Jardim, além dos táxis: pelos ônibus 30 e 31A ou então pelo teleférico que conecta o parque à vila de Monte acima, sobre a qual falaremos a seguir. Sob administração governamental, o jardim tem como característica a sua distribuição por platôs ao longo da encosta da colina, o que torna o seu percurso completo bem cansativo. Para compensar, as vistas  do Funchal obtidas são estupendas, especialmente a do miradouro na parte alta. Há uma enorme variedade de espécies da ilha e do exterior, incluindo um jardim de cactus, mas a seção mais interessante são os mosaicos nas cores verde e vinho formando desenhos geométricos, localizados perto da entrada principal junto à parada de ônibus. Na parte mais baixa do Jardim Botânico existe um zoológico de pássaros tropicais, incluído no ingresso, com destaque para papagaios e cacatuas, cujos sons podem ser ouvidos à distância.

O tobogã do Monte no seu ponto inicial

        A vila do Monte, situada nas montanhas sobre o Funchal a 540 metros de altura e ligada a ela e ao Jardim Botànico por dois teleféricos distintos, mais parece um jardim gigantesco , tamanha a quantidade de arborização existente. A vila era uma estância onde se refugiavam os figurões da alta sociedade europeia no século XIX; suas mansões são uma relíquia desta época áurea.  A igreja da localidade, Nossa Senhora do Monte, no topo de uma escadaria, é famosa por conter os restos mortais do último imperador austro-húngaro Carlos I. O ex-monarca aí pereceu em 1922 seis meses após se estabelecer numa quinta do Monte e foi posteriormente beatificado pelo Papa João Paulo II.  Perto da igreja, junto à encosta, se situa  mais um parque, os Jardins do Palácio do Monte, em volta do que era o hotel mais luxuoso da vila.

        Entretanto, Monte é mesmo conhecida por um transporte insólito que se inicia aos pés da igreja, o tobogã de vime. O carrinho com capacidade para um casal desce dois quilômetros ladeira abaixo com turistas rumo ao bairro de Livramento no Funchal, dividindo as ruas com os carros e controlado por dois condutores vestidos a caráter que se instalam no estribo traseiro. O freio disponível é a própria sola de sapato dos condutores. Originalmente os carrinhos carregavam somente mercadoria, até que um mercador local inglês vislumbrou o seu potencial para o transporte de pessoas, adicionando as cestas de vime. O passeio custa €25 o casal.
        
         Uma alternativa menos radical para se voltar ao Funchal é o moderno teleférico, que passeia sobre a capital até atingir a estação à beira mar na Zona Velha, constituindo-se em oportunidade inigualável para tomada de fotos. A viagem aérea de quinze minutos certamente vale a pena. A passagem de ida custa €10, e a ida e volta, €15.
O teleférico que une o Funchal ao Monte
       Se você tem interesse em produtos de vime, não deixe de visitar a vila de Camacha, a treze quilômetros do Funchal seguindo a mesma estrada da Quinta do Palheiro Ferreiro. Na loja O Relógio, pode-se assistir a demonstrações dos artesãos trabalhando e apreciar a enorme destreza com que montam os artigos de vime, retirado do caule de salgueiros das cercanias. A indústria do vime envolve 2.000 pessoas na região, quase um terço da população local. Camacha é também  conhecida por suas tradições folclóricas.

        Para finalizarmos nosso relato sobre o Funchal, um aspecto interessante é a questão da hospedagem. A maioria dos turistas estrangeiros fica alojada na chamada Zona Hoteleira, a três quilômetros a oeste do centro e acessada por uma rua com início relativamente íngreme. Aí se localizam grande parte dos hotéis com infraestrutura de entretenimento. Nada contra, mas preferi me hospedar em um bom hotel quatro estrelas com piscina,  rente ao Forte de São Tiago na orla da Zona Velha, o Hotel Porto Santa Maria. Achei a localização excelente, com fácil acesso a pé a todas as atrações, a uma quadra da estação de teleférico para o Monte e a duas da estação terminal de ônibus municipais e intermunicipais, além de se situar junto à rua dos restaurantes. Melhor impossível.

         Antes dos dois últimos posts da série sobre a Madeira, dedicados às incursões ao restante da ilha, bastante fotogênico e diversificado, apresentamos uma foto da marina da sua magnifíca capital.

A marina do Funchal
* Este é o terceiro de uma série de cinco posts sobre Madeira, Portugal. Para visualizar a série, acesse: Madeira, muito além da produção de vinhos.



  Postado por  Marcelo Schor  em 25.03.2012  



loading...

- Madeira - Lado Ocidental
Câmara de Lobos            Após desbravarmos o centro e o leste da Madeira no post anterior, nos voltamos agora para sua região ocidental. Esta área mantém ainda um aspecto interiorano, onde...

- O Funchal, Debruçado Entre Mar E Montanha
A orla leste da cidade. Em primeiro plano o Hotel Porto Santa Maria, onde me hospedei.         A capital da Madeira pertence ao seleto grupo de cidades que na língua portuguesa são antecedidas pelo artigo definido...

- Ilha Da Madeira - Muito Além Da Produção De Vinhos
 A costa rochosa no nordeste da ilha        Quando viajei à Ilha da Madeira em setembro de 2010, haviam decorrido seis meses da enchente devastadora que assolou a ilha e cujas imagens chocantes...

- No Jardim Botânico Do Funchal!
Uma das imagens marcantes do cartão postal da ilha da Madeira são estes bonitos e coloridos "tapetes" de plantas pertencentes ao jardim botânico, num dos morros perto do "Monte", os quais não podíamos deixar de ir (se bem que eu, da minha...

- No Funchal: A Capital Da Madeira!
Se existe uma expressão de "todos os caminhos vão dar a Roma", ali na ilha da Madeira "todos os caminhos vão dar ao Funchal" (não fosse o caso de estarmos numa ilha em pleno oceano Atlântico, a mais de 600 quilómetros da costa africana). De...



Viagens








.