A Riga do século passado
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A Riga do século passado


A fachada art nouveau da Faculdade de Direito na Albert iela, 13

         As atrações medievais da sua cidade antiga já extasiam nossos olhos conforme descrito no último post, mas Riga é realmente conhecida mundo afora pelas suas construções mais recentes, erguidas há pouco mais de um século.
         Sua característica marcante é a presença de prédios construídos no estilo art nouveau, fator decisivo na inclusão da capital letã como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Estima-se que cerca de 40% dos edifícios no centro de Riga tenham fachadas neste estilo. A quantidade de prédios restaurados só tende a aumentar, pois Riga será Capital Europeia da Cultura em 2014.

A fachada da Faculdade de Economia Stockholm, na Strēlnieku iela 4

        Muitos confundem a art nouveau com a art déco. O estilo déco é reconhecido pelos desenhos com motivos geométricos, estando presente em Miami Beach e em vários prédios do Rio de Janeiro; já a art nouveau é caracterizada pelas fachadas extremamente trabalhadas, com ornamentos remetendo a temas da natureza, históricos ou mitológicos. Este tipo de fachada é custoso de se construir e a grande quantidade existente em Riga se explica pelo momento histórico em que foram erigidas, no princípio do século passado. Nesta época, Riga era a terceira maior cidade do Império Russo e vivia um período de grande prosperidade, como importante centro econômico e industrial, atraindo grande quantidade de empreendedores, além de engenheiros bastante imaginativos. Coincidentemente, nesta época os russos extinguiram uma lei que estabelecia enormes restrições para a construção de prédios. Toda esta conjuntura permitiu o florescimento da arquitetura.

Fachada da Elisabetes iela, 10b

         Apesar de existirem em todo o centro, a maior concentração destas fachadas acontece nas ruas Albert (nomeada em honra do bispo alemão fundador de Riga), Strēlnieku e Elisabetes, na região das embaixadas. Os prédios art nouveau mais representativos foram construídos entre 1901 e 1905 por Mikhail Eisenstein, pai do famoso cineasta russo Sergei Eisenstein, que filmou obras-primas como o “Encouraçado Potemkin”. Uma caminhada por este bairro nos mostra uma coleção de flores, sóis, gárgulas, animais, esfinges e até medusas esculpidas nas fachadas e janelas. É um programa para se caminhar sem pressa por estas ruas, absorvendo cada detalhe e curva destes magníficos desenhos.

Fachada de um hotel na Cidade Velha

         Um  monumento erguido décadas depois possui uma  simbologia imensa para o povo letão. Trata-se do Monumento da Liberdade, no início do Brivibas Boulevard. Este monumento, apelidado de “Milda” pelos habitantes de Riga, foi construído em 1935 e homenageia os soldados que perderam a vida na Guerra pela Independência em 1918. A estátua de cobre no seu topo simboliza a Liberdade, com suas mãos segurando três estrelas que representavam as regiões letãs (duas das quais, Vidzeme e Semigália, serão abordadas no próximo post). Quando a Letônia não foi desocupada após a Segunda Guerra, todos pensaram que o monumento seria derrubado, mas os soviéticos resolveram mudar sua interpretação, afirmando que as três estrelas passariam a representar os países bálticos sob a proteção da Rússia. Para diminuir a importância do monumento, ergueram uma estátua de Lenin à sua frente, e proibiram a colocação de flores na base do Monumento da Liberdade, o que não impediu que as demonstrações contra o regime no seu ocaso fossem feitas aos pés do monumento. Hoje pode-se depositar flores livremente sob as vistas de dois militares que o guardam. Quanto à estátua de Lenin, foi retirada, assim como as demais estátuas impingidas pelos soviéticos.

O Monumento à Liberdade no início do Boulevard Brivibas

As três estrelas no topo do monumento

        O Canal Pilsētas, que separa a Cidade Velha do restante do centro de Riga, passa junto ao monumento, e é cercado pelo Parque Bastejkans, o principal recanto para descanso dos habitantes da área. O parque é muito popular entre noivos, que penduram cadeados nas grades de uma das pontes do parque, com votos de felicidade eterna. Quando caminhei por lá no meio da tarde de um dia útil, diversos noivos usavam a ponte como pano de fundo para suas fotos de casamento. Dali saem também passeios de barco para se visualizar a cidade por um ângulo diferente.

O Canal Pilsetas e o Parque Bastejkans

         Duas quadras adiante no Brivibas Boulevard, no caminho da Cidade Velha para o distrito art nouveau,  se encontra a Catedral Ortodoxa Russa, um belo prédio do século XIX, que atende à grande população russa que vive em Riga.

Catedral Ortodoxa Russa

         Minha visita a Riga não teria sido completa sem a visita ao Museu da Ocupação, situado na Praça da Prefeitura, em frente à Casa das Cabeças Negras. O prédio foi inaugurado em 1971, dentro das comemorações do centenário de nascimento de Lenin, obviamente abrigando outro museu.

       O Museu da Ocupação é uma oportunidade fantástica para se conhecer a história triste da Letônia entre as décadas de 40 e 80, e verificar todos os efeitos da opressão sofrida pela ocupações soviética e nazista na Segunda Guerra Mundial, seguida do longo domínio soviético, quando a Letônia sofreu um  processo dolorido de "russificação". Apesar de a apresentação das informações não seguir uma linha contínua, o que pode confundir um pouco as pessoas que não tenham alguma familiaridade com os acontecimentos, o museu cumpre bem sua finalidade de retratar o que aconteceu. Ele é mais abrangente que o museu da KGB de Vilnius, já que enfoca também o terror nazista. Em destaque, a reconstituição de um aposento de um gulag soviético e a descrição da situação das inúmeras pessoas e famílias inteiras deportadas para a Sibéria por critérios arbitrários nos anos iniciais do regime e que só puderam retornar décadas mais tarde, certamente completamente deslocadas. Um lembrete: o museu fechou para reformas no início de novembro - existe uma mostra temporária em outro endereço enquanto durarem as obras.

       Após visitarmos o Museu, dá para entender a  situação complexa que hoje vive a Letônia. Para substituir os letões deportados, o regime soviético promoveu uma imigração russa em massa para a Letônia. Como resultado, hoje 1/4 da população tem origem russa, sendo que em algumas cidades alcança a maioria. Esse pessoal (e aí se incluem os seus descendentes nascidos na Letônia antes da independência em 1990) não teve direito automático à cidadania e passaporte letões, só o conseguindo após passar em um teste aplicado no idioma letão com conhecimentos sobre o país. Muitos foram reprovados ou se recusaram a fazer o teste, se tornando cidadãos de segunda categoria. Houve um plebiscito em fevereiro último para se reconhecer o russo como segunda língua oficial da Letônia, mas o pleito foi rechaçado pela maioria votante.

O Museu da Ocupação à esquerda e o Monumento dos Fuzileiros Letões

         Plantado na praça mais conhecida de Riga e em frente à sua casa símbolo, a permanência do caixote feio onde está o Museu parece servir como metáfora e lembrança permanente da intromissão soviética na Letônia.

       Entre o Museu e o rio Daugava se encontra ainda uma das estátuas mais controversas de Riga, em homenagem aos Fuzileiros Letões, que defenderam a Rússia na Primeira Guerra Mundial e posteriormente ajudaram a consolidar a União Soviética, alguns atuando como guardas de Lenin. Muitos a veem como uma lembrança indesejável da era comunista. A estátua de granito composta por três homens de costas entre si foi inaugurada em 1971 e é um dos poucos monumentos erigidos pelos soviéticos que não foram retirados após a libertação.

         Rumamos no próximo post para o interior da Letônia, pródigo em grandes castelos situados no meio da floresta.

Este é o sétimo de uma série de posts sobre Varsóvia e os Países Bálticos. Para visualizar os demais,  acesse Descobrindo os Países Bálticos.



  Postado por  Marcelo Schor  em 20.12.2012  



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